SE FOSSEMOS APENAS PÁSSAROS

SE FOSSEMOS APENAS PÁSSAROS



                                           

  Um dos atos mais belos e singelos na natureza é a condição de cada pássaro, em especial os meramente cantantes. Apenas cantam, comem, procriam e morrem. 

Todavia, morrem todo dia? Na mesma melodia, ritmo e prosa? Alguns deles valsam no ar! Morrem sorrindo!? Como se bailando sobre partituras, brincando em cada eterno sonho de um morrer cantarolante!

Muitas vezes desejei assim também, apenas morrer.

Entretanto, muitas vezes vejo-me exatamente assim. Porém minha partitura branca, da solidão, é apenas rascunhada  com pétalas de rosas preenchidas, especialmente, quando acordam-me às onze horas  e o alarme como bicos de beija flores, como relógios cansados, também cansam de beijar, descansam suas asas no meu pequeno jardim suspenso no ar.

É como uma canção que o vento ao assobiar em mim estremece as entranhas, cadencia-me pelo ar e em sua leveza, essa vida,mata-me mais, mas mansamente, tirando da soberba da morte a solitude de estar tão só, espalhado-me no ensolarado da imensidão e, já sendo tão só, estou em tudo do nada que o universo engole e come pó estelar.

Isto sim é ser etéreo, eterno e só.

Doce calma me clama a finitude. Diz-me seus adornos e seus pendulicários. Fascino-me e seu beijo ocre rasga-me da boca a alma, até meu ventre e, em dois me vejo com outros tantos outros e, não sei quem mais somos, um célula de uma colcheia da  melancólica gorjeiada daquela  livre sabiá.

Mas sou apenas um desejo, que voa alto tão distante e sem rumo. Ruflando seus descaminhos, preso nesta redoma que chamamos de lar. Com poucos recursos tentamos medir o tempo enquanto somos engolidos pelo espaço.

E ao voltar a minha prisão, corpórea resumida a migalha que estou, ainda mais humilde silencio o choro, apago dos olhos a chama vertida, tranquilizo o pulsar e recolho mais uma partícula de ar pensando que o amanhã existirá, aguardo.


 

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