ORFANDADE DE PAI E MÃE VIVOS
Já a muito tenho falado da diferença evolutiva, ou da estagnação do fenômeno dos genitores, aqueles que apenas se resumem a gerar. Passando pelos poucos que bem ou mal conseguem manter os seus dependentes, os pais e mães. Ao chegar aos poucos que evoluem, ou ao menos, atentam a vencer seus limites para ofertar a ternura do paterno e do materno.
Passo a sugerir a necessidade de quem sobrevive desta ausência, a da qualidade da relação que os genitores não conseguem ou se furtam a perceber cativos, também, desse desamor de despersonificar as relações, as transformando em ciclos perenes de dor. No que aqui sugestiono, quem são às principais vítimas, dou-lhes a hipótese de ressignificar o processo doloroso com aceitação dessa orfandade.
Este como processo carece de luto dos pais idealizados, de famílias padronizadas, até de pessoas bitoladas pela cultura do consumo. Através deste luto, da ideológica extinção, psicologicamente, morte dos pais como heróis. E em detrimento a esta despersoficação ou idealização, que em ambientes chamados de lares, ainda promove-lhes favorecendo em lugares de amor em lugares onde ocorrem as piores violações, provavelmente porque se as relações são idealizadas os afetos sofrem irrealidades.
Devido, talvez, ao fato que tanto os pais que viveram e vivem pisoteados pela lógica adultocentrica, que continuamente estupra as infâncias. E, se assim for, projetam adolescentes, supostamente, problemáticos. Na realidade os comportamentos deles quase sempre são sintomas de não aceitar tal mundo adulto, o de de apenas consumir, destruir e de tão cego crer que tudo é imperecível, que o planeta não irá cobrar os excessos, como o mundo adulto parece agir.
Mas voltemos ao tema. A dor, que quando mais conscientes do processo de alienação dos genitores que os levam a impor uma relação adultocentrica e vertical, hierárquica e violadora de todas as formas de infâncias. Deste processo nascem todas as formas de sofrimento e floresce desproporções nas relações, desarmonias que só culpam e penalizam aos adolescentes. Forjam-se assim pessoas inseguras e ou agressivas, quando são ainda mais vítimas do sistema citado.
Retroalimentando relações quase sempre sadicomasoquistas. Não necessariamente patológicas, mas facilmente assim são percebidas, porque na realidade, geralmente são expressões de amarras muito complexas, tanto quanto a nossa beleza única, a diversidade de possibilidade de vida, que a visão adulta nega em si o direito a infância, adolescência e juventude, ou seja, vida para além da lógica de responsabilidades padronizadas do tipo de "trabalho dignifica o homem".
Aos que ensejam sair do ciclo dessa destruição, carece primeiro aceitar tal ciclo, questionar o grau de que a personalidade está implicada ao traço sadicomasoquista e mensurar o tempo subjetivo para tomada de nosso pacto com a sua dor e, assim, acessando-a chegar a cura. Uma novo pacto respeitoso consigo e amável com mundo.
E, assim chegar a entender que não se abraça a rosa sem lidar com os espinhos, mas o encontro é e pode ser processada, consciente de que ser corresponsável ao processo, dentro de eleição de graus de responsabilidade. Pois, nem sempre os pais são perversos, ou os filhos os são. Muitos de nós usamos as forças da violência, mas poucos tem consciência de que a violência pode ser estruturante. Pois este ato violento, como espinho pode ser um ato para encobrir nossas fragilidades.
Mas para quem precisa sair do ciclo da violência ela não ajuda, porque geralmente ela se dirige para si, ou para manter relações que a alimentem contra nós. Por isso, sugere-se a morte psicologicamente dos pais idealizados como se perfeitos fossem, aceitando as fragilidades e erros deles, se acessam aos nossos calos e dores, mas também, a nossas fragilidades, das quais podem nascer virtudes.

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